Se escolho me drogar, fico alheia e anestesiada. Então, decido ser gente, encaro uma crise de abstinência dos diabos e encaro o mundo que me olha de cima, com seu charuto fedorento, me sufocando, me trazendo mais uma crise de asma e incontáveis eczemas.
Acordo limpa e assim tento me preservar, em vão. Todo dia é sangue espirrando das plataformas, dos narizes, das feridas, dos corações. Relógios espalhados por todos os lugares que olho me fazem lembrar que há algo muito importante que foi esquecido e que, com certeza, me trará conseqüências. Se eu fosse uma pessoa séria, pensaria nessas conseqüências, planejaria, teria foco no futuro e seria, no mínimo, mais empreendedora.
É tanta técnica, é tanto ritmo, é caótico. Tudo robotizado, sincronizado, em seguida, sem espaço; senão não funciona. A porta prende meu braço. Na seqüência, me sinto confortável pelo simples fato de poder apoiar meus pés no chão e não ter um órgão genital masculino esfregado em mim. Atrito desnecessário. Pra onde se olha se vê os masturbantes tentando reduzir suas angústias, suas frustrações.
Eis que, contraditoriamente, no meio da semana, acordo com sorte. Consigo respirar. Tem ar. É condicionado, mas eu também não posso ser tão pessimista. Aquele corredor que outrora foi palco de discretos gladiadores, está vazio. Lembro-me da “caixa de Skinner”. Mais um apito. A porta se abre. É um cara que veio de longe, está com a barriga vazia, morrendo de vontade de um monte de coisa, morrendo de saudade da família, respirando esse ar sujo, sem dinheiro para sequer se arrepender e voltar atrás. Ele saca da viola e tenta me mostrar que a sua desgraça é tão maior que a minha, que eu terei vontade de chorar. E eu tenho. Ele é bom no que faz.
Dia-a-dia é coisa pra adulto mas, nesses lugares onde as pessoas são obrigadas a andar se quiserem comer, sempre dá-se um jeito pra tudo. O moleque entra com sua caixa de engraxate, agora pouco maior que ele, resmungando palavras que, alguém muito mais esperto que ele, o ensinou a repetir. Eis que surpreende a todos com o engasgo que não estava no script. Aquela mamadeira, aquele colo, aquele amparo... Eu me identifico. Naquele momento, sinto o que ele sente. Sou crescida e pareço tola. Retomo. Foco! Não posso sucumbir agora.
Quem sucumbe, tem lugar reservado. A proporção é surreal e mesmo assim, há os que se acham no direito de se sentirem debilitados sem ao menos transparecer. O senhor que já se despediu da metade de sua face, tateia e tateia afim de achar o bom senso de alguém que lhe ajude a prosseguir viagem sem que a ocasião lhe leve a outra metade. Não pela bondade mas, pela percepção, ele tem sorte. Hoje eu estou ali e vou travar mais uma discussão irrelevante com um ignorante qualquer. Amanhã ninguém se lembrará de nada, não é mesmo? Ele não se lembrará também porque está acostumado a não ter a quem se lembrar. As recordações já lhe parecem delírios em meio a essa realidade.
Se eu fosse Deus, os colocaria diante de mim: o violeiro, o menino e o velho. À eles diria que não existe uma só realidade e, sim, diversas delas. Mas não sou Deus e não entendo nada de realidade. Só sei que isso existe quando ela despenca na minha cabeça. Corro como cão atrás do rabo. Duelo louca sabendo que ela há de ganhar. Sabendo que amanhã serei só mais uma.
É por isso que amanhã será outro dia, outra realidade, outra empreitada. E amanhã será depois de amanhã. E depois, qualquer dia desses, se me encontrar alheia e descabelada, não me recrimine. A cirurgia da existência requer uma boa anestesia.